A crença fundamental de que o melhor que se tem a oferecer ao mundo é tudo o que você não é

Eu acho que já passei da fase de tentar inventar desculpas pra minha falta de periodicidade com o blog. Ops? Mas eu acho que isso é bom, de alguma maneira que justifica minha procrastinação — ficar sem escrever esses textos-desabafos-quase-ensaios sempre significa que eu passo mais tempo escrevendo ficção, o que acaba desdobrando minhas ideias de um jeito até bem mais objetivo do que falar de vida real. Vida de personagens é normalmente mais fácil de ligar os pontos, mesmo em mundos de horror e magia e tramas conspiratórias, porque a vida ficcional tem uma coisa que a vida real não tem: sentido. Infelizmente eu não posso reclamar com ninguém que na minha vida houveram furos no enredo, e aqueles sólidos três anos não fizeram sentido, e personagens entraram e saíram sem seres explorados. Fora que houveram claras mudanças de diretores sem nenhuma consideração com a continuação, o que é lamentável — e quem era o responsável por figurino entre 2010 e 2012?! Essa pessoa precisa ser demitida imediatamente.

Mas mesmo se eu tivesse com quem reclamar, acho que não reclamaria. Existem dois tipos principais de ficção: centradas no personagem e centradas no enredo. Quando a história é muito boa, isso às vezes se mistura e é difícil identificar onde os fatos acabam e o monólogo interno começa. Quando eu estou escrevendo, eu tento alcançar esse nirvana ficcional. Que meus personagens mais do que reajam ao meio, também mudem e revolucionem o meio, e que façam parte dele deixando muito claro que o meio é parte deles também. Acho que o que eu quero dizer com isso é que mesmo os furos no enredo da minha vida (e da sua, e da de todo mundo) desenvolve o personagem central.

Eu sou, por natureza, uma pessoa bastante amorosa. Eu gosto de abraçar, elogiar, beijar, fazer os outros sorrirem. O que me deixa viva é sentir o amor saindo do meu peito e encontrando todo mundo que passe na minha frente. Acontece que, bizarramente, existe uma cultura social de que amor — não tanto o romântico quanto o platônico: o amor pela pessoa caminhando na rua que te oferece um sorriso genuíno, pelo vizinho criança que segura a porta do elevador, pela moça trabalhando no caixa do supermercado que puxa assunto. Esse amor — é fraqueza, e felicidade derivada dele é infantilidade.

animated

(minha versão Powerpuff Girl, um argumento forte na direção contrária aos meus vários amigos que já fizeram piadas com eu ter que “crescer”. Se eu fosse Crescidona(TM) eu teria uma versão maravilhosa Powerpuff Girl?! Hein, hein?! Pois é. Toma essa.)

Eu também, por natureza, me importo com o que as pessoas pensam de mim. São níveis variados de dar importância a isso, claro. Quando eu era adolescente, me paralizava e tirava o ar dos pulmões, ouvir um cochicho sobre mim, uma especulação maldosa sobre A ou B. Hoje, eu me importo toneladas com o que as pessoas que eu amo pensam de mim. Se minha família se sente acolhida, se meus amigos sabem que apesar de minhas (humanas) limitações podem contar comigo, se meus alunos conseguem enxergar que eu enxergo eles também. Mas isso foi depois, com o passar dos anos. Voltando à minha natureza de se importar com o que as pessoas pensam de mim: eu entendi que o mundo achava que eu precisava matar essa vontade de sair espalhando arco-íris e coraçãozinho por aí pra ser considerada inteligente, esclarecida, Uma Pessoa Interessante (TM).

Então eu tentei. Não consegui matar, apesar de inúmeras e brutais tentativas, porque no fim, a natureza é a única coisa eterna, tanto ao nosso redor quanto dentro da gente. Mas o que eu consegui foi colocar essa suposta fraqueza-infantilidade em um coma.

Eu li hoje o maravilhoso texto Why Are You Lonely: A Text Game, da Mallory Ortberg. Uma das razões pra solidão que ela apontou me chamou atenção em especial. Minha tradução livre para: “(Você) constantemente mente sobre seus sentimentos, e aí se pergunta por que você sente que ninguém te conhece”.

Heh. Oh, bem.

Deixa eu te contar uma coisa sobre tentar agradar os outros: funciona. Raramente alguém vai se importar o bastante para ver por trás da farsa e perceber que não é real. As pessoas gostam de ver o que esperam acontecendo. Cinismo é uma das maneiras mais rápidas de fazer amigos — ou: “amigos”. Se modelar para o benefício do próximo é eficaz.

Pra agradar o outro, claro. Mas também é uma pílula com resultados imediatos para auto-flagelação psicológica.

Eu não sou essencialmente contra mentiras, e não é disso que eu estou falando. Eu estou falando de mentir sobre quem é. Eu estou falando de torcer o nariz pro que te dá felicidade, cancelar todos os canais da natureza, se forçar a beber mais um copo, segurar o choro, se calar diante de algo injusto, morder a língua antes de se expor emocionalmente. Eu estou falando do que eu fazia.

Outro segredo mal-guardado sobre mentir sobre quem é para agradar os outros: você vai, com rapidez surpreendente, mudando quem você é. É um processo brutal pela velocidade, mas que pode ser parado a qualquer momento. Só que eu não parava. Eu continuava, porque eu precisava da aceitação mais do que eu precisava ser quem eu era — ou eu achava que era assim, pelo menos. Eu deixei, por uma variedade de motivos, que eu fosse polida e esculpida em uma coisa “melhor”: em quem eu não era.

Esse paradoxo de ser-quem-não-é, é na verdade muito simples. Para aqueles que, como eu, consomem muitas histórias, tanto em forma de livros quanto seriados e filmes, o que eu estou falando é de caracterização pobre. É de quando um autor que não entende o personagem escreve um episódio e você fica com aquele gosto amargo na boca, pensando que o personagem nunca faria isso. É de quando um autor de HQs escreve, em um evento, sobre o seu personagem preferido e não faz sentido. É de quando uma criança de nove anos escreve fic da sua série de livros preferido e nem parecem os mesmos personagens (opa, essa última eu sou culpada. Eu peço aqui um perdão oficial pra todo mundo que teve a infelicidade de ler minhas fics de Draco/Hermione).

Eu fui mal escrita por mim mesma. Péssima caracterização. 3/10. Não recomendaria.

Eu não acho que é uma coisa ruim precisar de aceitação. Na verdade, se você me disser que você não precisa, eu vou ter certeza que você é ou 1. mentiroso, ou 2. iludido. Todo mundo precisa de aceitação, assim como precisa de amor, assim como precisa de comida ou água ou sono. É fundamentalmente humano. É básico da nossa espécie.

E, parece, também é tão básico quanto não achar que o que se tem a oferecer é o bastante.

Não quero ser mal interpretada: eu sou obcecada por blogs e livros e cursos que envolvem auto-melhoramento. Eu recentemente li How To Be An Imperfectionist, do Stephen Guise, e achei incrível. Eu gosto de tudo que usa termos como self-love pra falar de auto-ajuda. Guilty as charged. Então, sim, eu acho que vale a pena investir em si mesmo e continuar atrás de um eu-melhor.

Um eu-melhor pra si mesmo. Não um eu-completamente-diferente-porque-ser-quem-se-é-não-é-bom-o-bastante.

Com o passar dos anos, eu me revoltei contra minha própria escritora (uhhh, eu, no caso). Eu invadi o escritório dela, bufando de revolta, virei a mesa, derrubei tudo o que ela tinha, joguei itens que ela amava pela janela. E depois pedi desculpas por tudo isso, e desfiz tudo o que eu tinha feito de agressivo, porque a verdade é que não é da minha natureza atacar, eu só achei com o passar dos anos que era isso que queriam que eu fosse.

Mas ela me ouviu, e aí mudou tudo. Ela me olhou nos olhos e se enxergou escrevendo a primeira temporada de novo. Ela releu o primeiro livro. Ela voltou às primeiras edições e entendeu onde ela tinha errado: ela botou a mão no meu ombro e sorriu. Ela me devolveu minha caracterização original.

Assim, eu tive meu reboot, meu remake, meu começo do zero.

Como maior envolvida na narrativa da minha vida, eu ainda tenho algumas reclamações pro time criativo de autores. Eu gostaria, inclusive, de deixar aqui registrado alguns pontos de preocupação:

  • O time de figurino continua falho. Seria incrível se a personagem principal parasse de usar algumas roupas absolutamente desconfortáveis só porque são bonitas;
  • Temos alguns mistérios da temporada passada que ainda não foram resolvidos, como, por exemplo: o que os vizinhos de cima fazem às três da manhã que faz tanto barulho?! Será que estão mantendo prisioneiros?! Ou galinhas?! Precisamos de desfecho.
  • Eu entendo que a trilha sonora só seja adicionada nas edições de cenas, mas seria bem legal se houvesse algum progresso e as músicas tocassem conforme as cenas acontecem.

Mas é mais ou menos isso.

O que eu tenho a oferecer — quem eu sou — é bom o bastante.

Eu recomendo que você dê uma assistida nas temporadas anteriores da sua vida, e talvez reconsidere. Eu te garanto que o que você tem a oferecer — quem você é — é fundamentalmente incrível.

Anúncios

2 thoughts on “A crença fundamental de que o melhor que se tem a oferecer ao mundo é tudo o que você não é

  1. Você é simplesmente incrível… Sua escrita faz com que eu fique torcendo que não acabe, que tenha mais e mais um parágrafo!! Acho que posso opinar um pouco sobre todas essas temporadas dessa fabulosa série que é sua vida… Bem o que tenho a dizer é que você descreve autoconhecimento você conhece um pouco sobre ti a cada episódio e nunca fica “chato” de acompanhar a história porque absolutamente tudo que tu faz na vida é com o coração, mesmo quando o foco principal era a tua aceitação pelo social, ainda assim tua luz interior brilhava por trás do personagem confundindo os expectadores sazonais . Tu és sim uma “menina mulher ” super poderosa e o teu super poder é sempre inspirar as pessoas a serem melhores!!!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s