um maluco no pedaço e feijão com laranja

Acabei agora a última temporada de Um Maluco No Pedaço.

Eu lembro de assistir o seriado no horário do almoço, sentada na cozinha, remexendo a comida que eu não queria comer. Meu vô, quem passava as manhãs comigo, e depois me levava de ônibus pro colégio, deixava que eu assistisse qualquer coisa contanto que eu prometesse pelo menos tentar comer.

Eu remexia e remexia na comida.

Quando eu era criança, eu não gostava de comer. Quando bebê, minha mãe dava voltas na quadra comigo no colo e um prato de papinha na outra mão, e quando eu me distraía, ela enfiava uma colher de comida na minha boca, assim como quem não quer nada. Quando eu cresci mais um pouquinho, eu decidi que não gostava de quase nada (e o que eu gostava, eu normalmente enjoava depois de um tempo), e me fazer comer era difícil. Principalmente com o vô que, muito menos “briguento” que minha vó ou mãe, não sabia como me fazer comer. Eu era abusada, sabe? Eu sabia que ele não ia brigar como elas brigavam, então eu enrolava. Pelo menos uma vez por semana eu saía no meio de qualquer refeição, e dizia que ia ir ao banheiro. Eu me trancava lá e ficava sentada no chão, imaginando histórias, fazendo qualquer coisa pra passar o tempo, porque se a comida tivesse ficado fria o bastante, e se ele estivesse cansado o bastante da minha demora, talvez eu conseguisse um “tá, Gabriela, se tu não vai comer mais eu preciso lavar a louça”. Uma das únicas coisas que eu consistentemente gostava eram frutas. Ele picava frutas e misturava com o meu almoço, porque assim era mais provável que eu comesse. Eu gostava em especial quando era feijão — e ele colocava laranja picada junto, só no meu prato.

Eu e minha mãe fomos morar com meus avós quando eu tinha cinco anos.

Minhas memórias dos primeiros anos são, como qualquer pessoa na casa dos vinte que olha pra trás, meio embaralhadas de ordem cronológica e confusas. Mas algumas coisas eu tenho certeza absoluta: eu lembro de parar na frente do espelho do banheiro, e só ver minha testa ali. Eu ficava frustrada, porque não conseguia me ver em nenhum espelho da casa — eram todos altos, e eu tinha cinco anos. (Embora, é claro, eu não tenha crescido muito.) Eu lembro de correr de um lado pro outro na casa, porque ela era tão grande que nunca acabava. Eu lembro de uma vez que um vizinho sem querer trouxe um rato pra dentro de casa, e a Princesa, a gata siamesa de mil anos da minha vó, não fez absolutamente nada além de olhar com desprezo pra situação toda. Eu lembro da Flecha e do Urso, dos cachorros, e que quando eu e minha mãe brigávamos a Flecha latia na janela do nosso quarto, e eu sempre me sentia protegida. Eu lembro que minha mãe fazia carinho nas minhas costas pra eu dormir, mesmo estando cansada do trabalho. Eu lembro que eu tinha um cantinho no nosso quarto, em cima de um tapete, que eu fingia ser um apartamento de Barbie. (Eu vim a ganhar uma casa da Barbie com o tempo, mas ela era muito pesada e eu segui preferindo o tapete.) Eu lembro de esperar visitas na janela da frente, com os dedos agarrados nas grades da janela e o coração na boca. Eu lembro de brincar de lutinha com o meu tio, pouco mais que dez anos mais velho que eu, um adolescente na época. Eu lembro de ficar deitada na cama dele do lado oposto, nós dois ouvindo CDs do Legião Urbana em silêncio, deixando que a música preenchesse todos os espaços. Eu lembro de ficar sentada na área dos fundos, olhando o meu vô trabalhar no “galpão” que ele tinha construído ele mesmo. Eu lembro que tinha uma horta. Ela não sobreviveu por muitos anos depois que nós nos mudamos pra enorme casa, mas em algum momento tinha. Eu lembro de me deitar na cama dos meus avós e ficar olhando o ventilador de teto girar. Na época era o único da casa, e sendo um modelo antigo, tinha toda a cara retro que faz imaginar estar em outra época um trabalho fácil pra uma criança.

Eu lembro de muita coisa, entre minha infância e adolescência, mas tem certas coisas, sobre a casa e sobre meus avós, que fez com que eu desatasse a chorar descontroladamente assistindo o final desse episódio, o final desse seriado.

O Will, no seriado, é o sobrinho que vem morar por uns anos na casa dos tios. Ele diz nesse último episódio, que chegou na casa como um parente, e com o tempo se tornou família. Que ele tinha medo de perder isso.

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No último episódio, a casa também é vendida.

A casa dos meus avós passou por inúmeras mudanças desde que eu me mudei pra lá, há dezoito anos atrás. Mudanças drástica, não só o jardim — mas tinha, eu lembro, uma árvore com flores amarelas gigantesca bem na frente da casa –, paredes derrubadas e reconstruídas. Meu vô sempre gostou de reforma, e ainda ama. Acho que a verdadeira paixão dele está na reconstrução de tudo.

Hoje, minha mãe e minha avó me surpreenderam com uma visita de fim de tarde no meu apartamento, onde eu moro sozinha. Eu amo amar sozinha. Eu preciso escrever sobre o quanto eu amo morar sozinha, e o quanto revolucionou quem eu sou. Mas isso é pra outro momento. Por agora basta saber: eu moro sozinha.

Meu condomínio é em um bairro residencial, e bastante perto da casa deles. Hoje de manhã eu saí pra correr, e na volta passei na casa deles. Fiquei lá pra almoçar também. Eu não ia, na verdade, mas meu vô insistiu. Na mesa: ao meu lado direito, minha vó. Do meu lado esquerdo, minha mãe. Ao lado dela, na outra ponta da mesa, meu tio (o que era adolescente durante minha infância). Do outro lado dele, minha tia, a esposa dele que eu amo como se fosse sangue do meu sangue (mas sangue é só besteira, e eu amo ela muito muito). Entre minha tia e minha vó, sentado bem na minha frente, meu vô. Na sala, comendo vendo TV, o filho dos meus tios, que tem seis anos.

E é claro, eu. Na mesa, eu — adulta.

Eu comi vagem pela primeira vez na vida (adorei), me servi várias vezes de pimentão (que eu amo), moranga (maravilhoso), e tanto a massa com carne do meu tio quanto o arroz com galinha da minha vó. Eu comentei, meio impressionada, olhando pro meu prato sem restos, que era impressionante o quanto o paladar muda quando se cresce.

“É o que eu ‘tava te falando ontem,” minha vó disse, dando de ombros. “Tudo tem a hora certa.”

Eu era muito, muito apegada à casa deles. E a casa não é mais a mesma casa.

Eu sei que vocês não vão acreditar que cresci mais que dez centímetros, mas hoje quando eu fui lavar as mãos no banheiro, eu fiquei olhando o espelho, que há vinte e tantos anos continua o mesmo. Eu vejo até a minha cintura naquele espelho. Parece que não era um espelho tão alto assim, no final das contas.

Eu sou muito, muito apegada aos meus avós. E eles não são mais os mesmos, e nem eu sou a mesma, mas tudo bem. Nós não somos parentes. Nós somos família.

(Vídeo em inglês da última cena do seriado.)

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