arrombaram a casa dos meus pais — e eu percebi que não tinha espaço no meu coração pra te amar

Aviso justo: esse é um texto sobre cachorros.

No começo de março, minha cadelinha morreu. Eu digo minha, porque apesar de isso ser quando eu ainda morava com meus pais e ela ter sido, tecnicamente, da minha mãe, eu a considerava muito, mas muito minha. Era eu que ela seguia pela casa como se fosse uma sombra. Era eu quem dividia um quarto com ela.

Foi eu quem viu a pior crise de saúde que ela já teve começar, no meio da madrugada, e acordou o resto da casa pra que fossemos para uma clínica veterinária.

Perder a Téia foi difícil pra mim. Eu tinha outras coisas acontecendo, coisas empolgantes e maravilhosas. Eu estava há pouco tempo em um trabalho novo que eu amava, eu tinha a perspectiva de me mudar em breve, eu estaria me sentindo ótima… se não fosse por isso. Se não fosse por ela. Se não fosse pelo luto de ter perdido minha melhor amiga, que tinha sido minha melhor amiga por metade da minha vida.

Alguns meses depois, meus pais compraram um cachorro novo. Um filhotinho lulu que minha mãe deu o nome de Sofi.

As fotos acima foram tiradas no primeiro dia dela lá em casa.

Já nos primeiros dias dela lá em casa, ficou claro que ela não ia ser uma substituta pra Téia. A Téia era calma, tinha um temperamento meio de pastor alemão, não chorando nem com vacina nem com pisão na pata, fiel aos extremos, mas obediente, desafiando qualquer estereótipo de poodle.

A Sofi, desde o primeiro dia, foi um furacão.

Mais do que isso, acho que ela simplesmente não tinha muito interesse em ser uma segunda versão da Téia. Uma versão viva da Téia. E se for pra ser sincera pela primeira vez desde que ela entrou pra nossa família, eu não conseguia admitir isso.

tumblr_nmjqogkeDh1qdbq4go2_1280Eu sei que ela é linda. Ela sempre foi linda, desde os primeiros meses, e depois quando ela foi ganhando mais e mais kilos e ficando mais e mais louca. Meu problema com a Sofi não é que ela não era fofa, ou até mesmo que ela era tão agitada…

O meu problema com ela era que ela não era a Téia. Me enchia o coração de tristeza, olhar praquele filhotinho lindo, e saber que a minha cadelinha não ia voltar.

Parecia traição com a Téia não exigir que a Sofi fosse exatamente igual ao que ela era. Ela era perfeita, entõa a Sofi tinha de ser igual, ou não era boa o bastante.

Pouco tempo depois eu saí de casa. Tinha outras preocupações, outros focos… e apesar de eu ter sonhado com a Téia toda semana no primeiro mês que eu morei sozinha, ainda assim, não era a coisa que eu mais pensava, nem de longe.

A Sofi foi crescendo.

E, inexplicavelmente, apesar de minhas visitas à casa dos meus pais serem semanais no melhor dos casos, toda vez que ela me via, ela enlouquecia de amor.

Isso me revoltava.

Eu nunca tinha amado aquele cachorro do jeito certo, por que diabos ela era tão apaixonada por mim?! Não parecia justo. Parecia provocação. Parecia… eu não sei o que parecia. Eu só sabia que me deixava chocada, incomodada… Me deixava culpada. Porque eu precisava superar a morte da Téia, pra poder dar uma chance pra Sofi. Não esquecer a Téia. Só superar, entender que ela não vai voltar. E que não tem nada demais em amar outro cãozinho depois dela.cgdn-03weaaycg7

Com o tempo, as coisas foram mudando no quesito Sofi. Eu fui aprendendo a me apaixonar por ela. A gente foi se dando melhor e melhor. Meu coração foi sarando, e toda vez que eu dava uma passada mesmo que rápida na casa dos meus pais, eu fazia um carinho nela, mesmo pela grade.

E aí, essa semana, arrombaram a casa dos meus pais. Minha mãe me falou pelo telefone, soando calma e controlada. Mas eu engasguei com o choro, perguntei: “E a Sofi?” com o coração na mão.

Eu fiquei absolutamente apavorada com a possibilidade de terem feito algum mal pra essa cadelinha que, meses atrás, eu queria me convencer que nunca ia ter espaço no meu coração.

Minha mãe me disse que a Sofi estava bem, que com o barulho do ladrão quebrando a janela, ela deve ter se assustado e ido pra baixo de algum móvel, e eles não devem nem ter visto ela. Me pediu pra parar de chorar. Repetiu que, sim, estava tudo bem com a Sofi.

Depois de eu desligar o telefone, eu sentei no sofá, com o rosto escondido nas mãos, e chorei de soluçar. Só de pânico do que poderiam ter feito com ela. Porque ela nunca poderia preencher o espaço que a Téia deixou, mas o coração é um músculo que expande (pessoas de biologia, não me interrompam). Ele expande infinitamente, se a gente deixar. Se a gente permitir, a gente consegue amar todo mundo, sem precisar esquecer de ninguém, nem substituir ninguém.

Está tudo bem com a Sofi. Está tudo bem com todos nós.

E hoje eu entendo, que no meu coração, agora tem espaço pra amar ela também, muito muito.

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