você (não) deve escrever pra você mesmo

Esse semestre foi, sem dúvida, o semestre onde eu mais tive que escrever em gêneros diferentes. O que eu me sinto mais confortável escrevendo, ficção, ficou de lado, pra que eu trabalhasse no meu extenso relatório de estágio, e, é claro, meu TCC. Eu conversei com várias pessoas que já haviam escrito os trabalhos de conclusão, e a maior reclamação foi, sem dúvida, terem sido deixadas na mão por seus orientadores.

Minha orientadora foi uma linda. Não acho que qualquer outra palavra caiba aqui além dessa. Ela não apenas me deu todo o apoio acadêmico, como também o moral. É fácil se questionar um milhão de vezes durante um trabalho dessa complexidade — eu senti vontade de largar tudo várias vezes. Quando eu, em um final de semana, depois de horas na frente do computador, descobri que eu simplesmente não ia conseguir operar os programas de coleta de dados do Twitter, eu fui pra sala, cobri o rosto, e chorei por uns vinte minutos. Eu mandei um e-mail meio desesperado pra ela. Ela me respondeu com basicamente: “respira, vamos trabalhar nisso, vai dar tudo certo”. Respirei. Trabalhamos nisso. Deu tudo certo.

Writing4

(imagem meramente ilustrativa. Eu tenho vontade de chorar de dor no pulso só de olhar pra esses cadernos com tanta coisa escrita. Eu só uso o computador.)

Escrevendo meu TCC, eu estava escrevendo, antes de qualquer coisa, para ela. Minha orientadora foi a primeira pessoa a realmente me fazer entender o quanto é bonito o trabalho em equipe, a discussão de pontos, a melhoria que acontece só depois do debate. Eu não tinha tido antes disso muito espaço pra conversa dentro de meus textos, não desta maneira — mas eu vou falar mais disso daqui a pouco — então minha primeira reação foi levar a crítica como alfinetada, achando que bom, então eu simplesmente não era tão boa assim.

Com ela, eu entendi o que realmente significava a construção em cima de (docemente enunciada) crítica, que é diferente da crítica construtiva, que só comenta e vai embora. Ela me ajudou na parte da construção, também.

Mas o que eu queria dizer com tudo isso é que se eu não tivesse esse relacionamento tão legal com a minha orientadora, talvez eu não estivesse tão contente e orgulhosa de como anda meu TCC. Aconteceu assim, porque eu estava escrevendo pra ela. Deixei meu texto fluir da melhor maneira que consegui, porque eu queria orgulhá-la também. E ela, ao me ajudar a melhorar o texto, queria deixá-lo apresentável para publicação: ela não quer que termine nela a leitura.

Eu suspeito que seja também porque ela sabe que eu não escrevi (que não escrevemos) o trabalho só pra mim (e para nós).

Além da faculdade, eu não larguei meus projetos fictícios. Eu escrevo ficção de um jeito ou de outro desde os nove anos de idade, e nunca consegui parar por mais que uns dois, três meses. É minha ferramenta preferida pra relaxar, desconectar, desacelerar. Eu fico muito ansiosa se passo muito tempo sem entrar na cabeça de personagens e decidir o que fazer com a vida deles. Acho que escrever ficção dá uma sensação de controle que a vida real não permite; uma estabilidade que traz paz, mesmo quando se está escrevendo sobre guerra e ainda não se decidiu o futuro dos personagens principais.

Mas enfim. Eu escrevo. É o que eu sempre fiz, é o que eu faço, é o que eu quero fazer até o dia que eu morrer.

Eu já escrevi quatro novels, histórias originais de “tamanho de livro”, mas com cada uma delas tinha um grande peso de incerteza, de não achar que o conteúdo era suficientemente bom que valia a pena dedicar todo o meu tempo na edição dele pra que eu me sentisse segura em mandar para agentes literários — na verdade, no primeiro, eu tentei. Ou mais ou menos tentei. Eu mandei alguns e-mails, mas não acreditava muito na história. Hoje, uns anos depois, entendo que eu e ela não conectamos tanto assim.

No momento, estou escrevendo uma história na qual eu confio inteiramente. Eu acredito nessa história. Eu não estou escrevendo só porque eu preciso saber o que acontece com os personagens — minha motivação principal, normalmente. Eu estou escrevendo porque eu acredito que essa história mereça ser lida por um monte de gente.

Várias pessoas já estão lendo essa história conforme ela está sendo escrita. Uma amiga veio falar comigo hoje de manhã, me falando sobre o último capítulo que eu escrevi. Ela comentou sobre as partes preferidas dela, os desenvolvimentos pelos quais ela está mais empolgada, as partes que deixam ela mais ansiosa, etc. Eu fiquei com os olhinhos brilhando com o quanto a história significava pra ela, também. Eu disse isso. Ela respondeu com: “eu sei que o conselho número um pra autores é que eles devem escrever pra si mesmos, mas eu acho legal agradecer os autores por compartilharem suas histórias na forma de feedback”.

Eu parei. Olhei pra tela do computador.

Ela está certa. Logo depois de “escreva o que você conhece”, “você deve escrever pra você mesmo” é um dos conselhos mais repetidos para escritores de qualquer tipo.

Como. Assim?!

Minha primeira “obra” de ficção foi uma fan fiction de Draco/Hermione, do fandom de Harry Potter, postada no falecido site de fics Três Vassouras. Era uma fic muito, muito ruim. Eu tinha onze anos. Tudo o que eu lembro da fic era que o título era “Porque O Veneno Não É Tão Doce Assim” (quem acharia que veneno é doce?! Por que começar um título com PORQUE?! Eu planejava em algum momento escrever sobre venenos ou pessoas envenenadas na fic?! Socorro?!), e que eles eram todos adultos, mas, previsivelmente, já que eu tinha onze anos, agiam como se fossem crianças. Mas a fic não ser boa não quer dizer que eu não tinha leitores.

Eu tinha leitores. Surpreendentemente, pessoas gostavam dessa fic, e comentavam em cada capítulo novo que eu postava. Uma das pessoas que comentou nessa fic, há mais de dez anos atrás, é minha amiga até hoje. (Nós não falamos sobre meu passado.)

Depois do fandom de Harry Potter, eu fui pro fandom de bandas no Orkut. A resposta era imediata. Nós postávamos fics em comunidades onde para cada trecho de fic, tinham quatro, cinco pessoas diferentes comentando, encorajando, surtando. Eu fazia questão de ser prolífica e escrever o máximo possível, porque eu sabia que eu não estava sozinha. Existia uma comunidade onde eu teria leitores.

A única instância onde eu escrevo só pra mim é minha agenda, onde eu escrevo coisas do tipo “ligar pros pais do Fulano, do nível X, nota 3.4”, ou “comprar mais batata” (eu amo batata, gente), ou “PQP GABRIELA LIMPAR A CASA”. Eu não compartilhar as páginas dessa agenda é essencialmente porque elas são escritas só pra mim — são desinteressantes e irrelevantes pra qualquer outra pessoa. Se eu escrevo ficção, ou se eu escrevo um trabalho acadêmico, não existe chance de eu estar escrevendo só pra mim.

Alguém que eu estudei em semântica esse semestre escreveu sobre o texto não ser só do autor (desculpa, Lia). No momento que eu — ou você, ou a pessoa que escreveu essa ideia originalmente — escrevo alguma coisa, esse texto deixa de ser só meu. Ele vira meu e de quem quer que esteja lendo. Ele fica aberto à interpretações. Ele vive fora de mim. Eu não sou mais a pessoa que detém todo o poder em relação a ele.

A autora da série Harry Potter, JK Rowling, em 2007, alguns meses depois da publicação do último livro da saga, anunciou que o personagem Dumbledore era gay, apesar de isso não ser explícito nos livros. Esse foi só o primeiro de inúmeros comentários que a autora fez com o passar dos anos, dando detalhes extras sobre o universo. Apesar de, na teoria, isso parecer legal — mais insight –, muitos fãs se contorcem de ódio toda vez que isso acontece. Não porque eles não queriam que o Dumbledore fosse gay. Na verdade, esse foi o anúncio menos controverso, provavelmente. O que os fãs reclamam é de ter suas versões e teorias do que acontece pelas entrelinhas anuladas pela autora. Porque no momento em que ela publicou os livros, a história deixou de ser só dela. Essa história pertence à milhões.

É por isso que fez tanta diferença eu ter uma orientadora legal para o meu TCC. É por isso que várias pessoas já estão lendo a história que eu estou escrevendo e não está nem perto de estar terminada ainda. É por isso que vários fãs de Harry Potter querem que a JK ache um novo hobby.

Porque ninguém escreve só pra si mesmo.

Escreve-se para o mundo. E essa é a parte mais legal.

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6 thoughts on “você (não) deve escrever pra você mesmo

  1. Eu concordo, apesar que no meu caso, o ato de escrever está mais para um parto de um filho feio que a mãe já quer fazer um lifting facial, uma ajeitada aqui e alí e que nunca acaba. Massss… eu concordo contigo. Você (deveria, ao menos) escreve para você, mas as influências dos leitores afetam o que se escreve.

    E eu, ao contrário de grande parcela dos Potterheads por aí, curto muitíssimo todas as novidades da Tia Jô. Dumbledore ser gay foi um “oh, really?! como vocês nunca repararam nisso?” hahahaha

    Meu TCC foi traumático e meio como o que todo mundo fala, de ficar na mão com o orientador, mas foi só meio, e a gente estava bem adiantado com tudo, então não me afetou ou me enlouqueceu não. (mas desde aquele semestre, odeio, ODEIO, O-D-E-I-O grupos de dança conteporânea)

    Mas o que estou enrolando aqui para dizer é que… queria muito ler essa história sua… não há a possibilidade de ter um link escondido ou rolando por aí, pra me hiperlinkar não?! Ficção? Tô superdentro, PLEASE! *puppy eyes*

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    1. Essa é a melhor descrição de escrever de todos os tempos. Já tinha pensado em estar gerando uma vida literária, mas essa é, sem sombra de dúvidas, a melhor descrição. Fernanda arrasando!!!

      Então, eu fico meio dividida em relação à JK. Parte de mim quer gritar pra ela LET IT GO, mas pode ser amargura de ela não fazer nenhum pronunciamento que me agrade (tipo dizer que se arrepende de Ron/Hermione juntos, todos os comentários em relação a odiar o Draco, etc.), então sou meio biased! 😛 Mas eu lembro que quando ela anunciou de o Dumbledore ser gay, eu troquei meu avatar do MSN pra uma imagem apropriada, que era, é claro, o Dumbledore na frente de uma baneira arco-íris. Porque sim.

      Yikes, ficar odiando o assunto do TCC é tão??? Trágico???? Porque é pra ser o oposto, né? Eu ainda to super investida. Quero estudar mais sobre isso. Talvez entrar em uma pós ou mestrado no futuro com as mesmas coisas em mente… Mas eu tive sorte, realmente. Minha orientadora é uma linda maravilhosa.

      ! ! ! ! Que coisa mais BONITA. Me passa seu Facebook que eu vou ficar super feliz de te mandar!!!

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