em defesa de quem fica conectado 24h/dia

Festa de adulto sempre tem os mesmos personagens. Em algum momento da noite começam as apresentações reais, muito além dos nomes. Eu não estava falando com um Cláudio ou uma Renata, mas com um Formado Em Direito Na PUCRS, e uma Formada Em Medicina Na UFRGS. Claro, eu não estou falando que todas as festas de adultos são assim. Estou falando daquelas festas na casa de amigos, que por algum motivo você se perde das pessoas que você conhece, e acaba sentada no sofá brincando com o cachorro dos donos da casa, até que essas pessoas simplesmente acham você.

São as pessoas que lêem Bukowski e recitam Morangos Mofados de cor, mas acham que Harry Potter não é literatura, e nada publicado depois dos anos 2000 vale a pena ler. Eu tenho pouca paciência com essas pessoas, normalmente. Essas pessoas são as pessoas que ficam em silêncio por alguns significativos segundos quando eu digo que eu sou da Letras. “Entendi. Então tu não está dando aula até surgir algo melhor?” veio a primeira pergunta, do Formado Em Direito Na PUCRS. Eu respirei fundo. Não é a primeira vez que me perguntam isso.

“Não,” eu comecei, voltando os olhos pro cachorro, no chão, abandonado e já perdendo o interesse em me esperar terminar a conversa. “Eu gosto de dar aula mesmo.”

Mais silêncio.

A Formada Em Medicina Na UFRGS, que inexplicavelmente não comentou sobre o trabalho dela pós Formação Na UFRGS, tinha opiniões sobre a minha formação. “As crianças tudo bem. Mas deve ser um inferno dar aula pros aborrecentes, né?” Ela riu. O Formado Em Direito Na PUCRS também riu.

Eu respirei fundo mais uma vez.

Agora, é importante dizer aqui que qualquer pessoa que usa o termo aborrecente não tem nenhuma credibilidade comigo. O desejo de debochar de adolescentes pelo simples fato de serem adolescentes me traduz como uma amargura tão grande à vida adulta que eu sinto pena e desgosto em partes iguais. Mas eu não disse isso. O que eu disse foi: “É minha faixa etária preferida de dar aula, na verdade,” e dei de ombros. Porque né? Eu: ¯\_(ツ)_/¯

Mas não terminou aí, porque essas são pessoas que acharam justo comentar que lêem Bukowski e Caio Fernando Abreu nos primeiros cinco minutos de conversa. Essas são pessoas que comentaram “casualmente” que é uma lástima que a juventude não se interesse por leitura. Eu me abstive de comentar que eu li Galeano pela primeira vez com um presente de uma aluna de treze, catorze anos.

Essas são pessoas que insistem: “Ai, Deus que me livre. Esses adolescentes só sabem ficar no celular o dia inteiro, devem usar na sala de aula o tempo todo. Ou grudados no celular, ou no computador. Não tem cultura nenhuma.”

E aí eu explodi.

Eu não estou mais aqui, não estou digitando nem falando nem respirando. Porque eu explodi. Começou com uma explosão dentro de mim e aí eu explodi como uma supernova, fagulhos indo em todas as direções. Pelo menos eu explodi neles. Pelo menos as roupas de lavar a seco agora têm pedaços de mim sujando elas.

Em respeito às algumas pessoas ali que eu amo e também amam Essas Pessoas, eu só respirei fundo uma terceira vez, disse que precisava usar o banheiro, virei as costas e fui procurar o cachorro, que não ia me decepcionar. Eu já tinha explodido mesmo, então que mal ia fazer? Encontrei o cachorro na sacada. Fiquei sentada ali, com um labrador de mais de dez anos e cego de um olho, argumentando com o cenho franzido e minha mão perdida no pêlo dele.

Ele me entende, eu acho.

É o seguinte: existe uma moda nova entre bloggers que eu adoro e admiro para se desconectar. E eu acho que todos têm que fazer o que acharem justo fazer com suas vidas, e caso se desconectar dê o impulso que a pessoa precise, então, by all means. Mas essa reputação ruim da tecnologia me deixa desconfortável, principalmente quando é jogada na cara dos adolescentes como se ter nascido dentro de um mundo tecnológico seja culpa deles. A minha geração, nascida no começo dos anos noventa, assistiu a transição de celulares comuns para smart phones com Internet. Minha geração assistiu o adeus da Internet discada para dar espaço à Wi-Fi em tudo quanto é loja, shopping, até estação de trem. Nós estamos divididos em relação à tecnologia. Metade de nós é tão obcecado por ela quanto a geração que veio depois de nós, a outra metade carrega um martelo pra julgar a primeira metade, porque nós somos escravos de telas, com os olhos sempre grudados nelas.

Eu faço parte da primeira metade.

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(euzinha, em 2011, em plena Nova York!!! Que absurdo, perdendo tempo no celular ao invés de aproveitar a viagem!!! … falando com a minha mãe pelo Facebook, porque o roaming do celular era inacessível de tão caro, e a gente sentia saudades.)

a) Em relação ao uso de celular na sala de aula

Se meus alunos usam o celular na sala de aula? Sim. Esses dias, uma turma minha de adolescentes estava fazendo uma atividade de conversação onde eles tinham que escrever algumas coisas que o colega contava pra eles. De longe eu vi uma menina começando a digitar no celular enquanto o colega falava. Horrorizada com a falta de respeito de mexer no celular enquanto outro fala, eu fui indo na direção dela, parando atrás, pronta pra chamar a atenção pelo uso indevido. E aí eu vi que ela estava escrevendo no App de notas cada palavra que ela ouvia. Eu pedi desculpas, com uma risada, e segui observando. Vi mais quatro duplas fazendo o mesmo.

Eu não gosto de escrever à mão. Nunca gostei. Não copiava quase nada do quadro quando era aluna, mal fazia as redações, só porque doía muito meu pulso. Mas digitar, tanto no computador quanto no celular, não me causa desconforto nenhum. Me parece meio absurda a noção de negar a eles que usem a tecnologia. Na escola onde eu trabalho, temos quadros digitais onde escrevemos com canetas, às vezes explicações gramaticais inteiras. É permitido que os alunos tirem fotos com os celulares, se quiserem, contanto que seja material produzido pelo professor (não o que é pela escola, por uma questão de copyright).

Todos esses recursos, além do dicionário de vez em quando, são maravilhosos. Eles aceleram o aprendizado. Eu tenho duas alunas particulares que tiram foto de tudo o que eu escrevo no meu caderno, pra passar a limpo depois. É a maneira de elas estudarem e ao mesmo tempo não perderem tempo de aula copiando. Mas isso são elas. Vários de meus alunos adolescentes simplesmente nunca copiam nada. Eles tiram fotos. Talvez você precise escrever pra aprender. Os outros? Não necessariamente.

b) Em relação a vida social

Um argumento muito usado é que quem fica grudado no computador/celular/Internet, não está se permitindo uma vida social. Deixa eu te contar uma coisa: eu passei boa parte da minha adolescência atrás de um computador, sendo absolutamente social. Às vezes, o meio não oferece a você o meio social que agrada. Nenhum dos meus colegas de escola estavam obcecados por bandas emo, ou queriam saber de fanfic, seriados. Eu precisava daquilo. Eu não podia viver aquilo sozinha. Então eu fui pra Internet, e achei uma rede com um monte de pessoas incríveis que não só queriam falar daquilo tudo, como também queriam falar de muito mais.

Acho que esse é o mito que mais me incomoda, que interação social virtual não é boa o bastante, que precisa ser face-a-face. Claro que encontros pessoalmente tem seu valor. Mas por que não justamente com essas pessoas? Esse ano, eu fui para o Lollapalooza com uma menina carioca da minha idade, que eu conheci quando tínhamos uns treze, catorze anos. Foi em um site de fanfic (de… Harry Potter? Sei lá). A gente não falava dessas coisas em anos. A gente falava sobre vida, relacionamentos, trabalho, faculdade, família. E aí a gente foi em um festival de dois dias juntas, e foi incrível. Meu ano novo de 2012 eu passei na casa de uma amiga paulista que eu conheci pela Internet, há uns dez anos atrás, em um fórum sobre bandas. Com mais duas amigas que eu conheci pelos mesmos meios. Mais recentemente, uma outra amiga carioca veio passar uns dias aqui em casa. Nossa amizade, online, já entrava na casa dos dez anos também.

Amizades que começam online não são menos reais que amizades que começam na escola, no ônibus, em uma festa. Amizades são amizades, e pronto. O senso de pertencimento que vem com ter coisas em comum com um grupo não sempre se dá com pessoas que já estão ao seu redor fisicamente. É claustrofóbico limitar alguém a isso, quando essa pessoa pode ter uma vida social fora de seu bairro e sua cidade. Ela pode ter uma vida social com o país inteiro, com o mundo inteiro. Uma das minhas melhores amigas é uma inglesa, e eu não lembro qual foi a última vez que nós ficamos um dia inteiro sem falar uma com a outra por WhatsApp, FaceTime, ou Hangouts. A distância de cinco milhões de quilômetros entre nós não faz da nossa amizade menos real.

Ao invés de criticar sua sobrinha ou seu primo que passa horas na Internet falando com pessoas de outros estados ou países, o chamando de anti-social, considere que talvez o problema seja você. Você só não é interessante o bastante para eles. Desculpa ser a portadora dessa notícia.

c) Em relação à Internet só ensinar coisa inútil

Se alguém ousa falar que a Internet é um poço de sabedoria, lá vem o argumento que sim, é! Sabedoria inútil.

Eu aprendi o meu inglês, certificado por Cambridge como proficiente, na Internet.

Eu estou aprendendo francês na Internet.

Eu aprendi a escrever de verdade na Internet.

Eu aprendi sobre justiça social, questões de raça, gênero, orientação sexual, na Internet.

Eu me eduquei na Internet, muito mais do que na escola. A metade da minha geração que mantém a cabeça aberta, também. Essa próxima geração, que metade de nós critica sem parar? Eles sabem usar a Internet. Eles checam fontes ao invés de compartilhar imagens tabu no Facebook com dados errados e sensacionalistas. Eles se auto-ensinam o que os adultos não sabem. Eles entendem que nenhum professor é o detentor de toda a verdade, mas a Internet pode ser.

E eles filtram o que eles acham válido. Diferentemente da nossa geração, sofrendo lavagem cerebral de um único canal de TV durante toda a infância e primeiros (e pra alguns, todos) os anos da adolescência, eles tem a rede inteira. O que não presta eles descartam. E vão atrás da verdade.

Eles podem não saber quem é Charles Bukowski e nunca terem lido Morangos Mofados. Mas tudo bem, porque eu tenho certeza que as duas pessoas que eu falei no começo do post só leram a Wikipedia do Bukowski e só leram trechos de Morangos Mofados que aparecem em imagens de páginas poéticas do Facebook.

Esses são três pontos. Existem outras várias bênçãos da Internet, do acesso fácil à informação, do não precisar sentir saudade de ninguém, todo mundo à um clique de distância, inclusive seus maiores ídolos através de Twitter e outras plataformas. Mas o que eu mais queria que ficasse claro com o meu posicionamento inflexível com o quanto eu estou feliz de viver com essa tecnologia é: se você está lendo isso, está lendo na frente de uma tela de celular ou computador.

Adolescentes usam a Internet o tempo todo. Nós também. A forçada nostalgia não faz com que eles se sintam culpados de serem eles mesmos, e desfrutarem do que podem — e nem deveria. Só faz você parecer um velho chato, mesmo aos vinte e poucos.

E viva a Internet.

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8 thoughts on “em defesa de quem fica conectado 24h/dia

  1. OBRIGADA.
    OBRIGADA, SÉRIO
    Claro que eu sou suspeita pra falar, já que eu te conheci no tumblr por causa de fanfics de Avengers e, cara, nunca ninguém no mundo vai me dizer que eu não te conheço pq eu te conheço, sabe? Eu posso não ser a pessoa que mais te conhece no mundo, mas tu não é “alguém da internet”, uma “amiga virtual” (wuuut?) ou qualquer coisa assim.
    Me dói ver pessoas falando assim do mundo virtual porque 1) eu trabalho na internet, ficar na internet o dia inteiro faz parte do meu trabalho e 2) eu conheci meio que todas as melhores pessoas da minha vida através dela. Não é minha culpa se meus amigos não nasceram na mesma cidade que eu, certo? Ainda bem que a internet existe.

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    1. !!!!!! Sim, sim, sim, sim, sim, um milhão de vezes sim.
      O termo em inglês me incomoda tanto — como assim, “real life” oposta à vida online? Vida online é vida real também. Amigo online é amigo real. Tudo o que a gente faz na Internet conta na vida real também. Tanto o bom, quanto o ruim (trolls e pessoas que mandam anon hate, estou olhando pra vocês).
      Sim, Pam. Ainda bem. ❤

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  2. Só queria dizer que te amo muito pelo texto. Disse tudo o que eu penso e que quando eu falo com outras pessoas levo olhares tortos, torcida de boca e um “você sabe que não é assim”. É assim sim, pq eu faço assim, eu tenho amigos reais que conheci pela internet, tenho melhores amigas que conheci tb em fóruns (de fanfic de Harry Potter, que coincidência!), e se a pessoa teve más experiências na internet (provavelmente por burrice dela) não é culpa minha. A gente, o mundo, precisa de pessoas mais cabeça aberta como você. Ganhou uma seguidora fiel hoje. 😉

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    1. Eu fiquei pensando tanto nesse comentário que cheguei a sonhar com ele, acredita? Que comentário lindo.

      Cara, eu nem ENTENDO o argumento de “você sabe que não é assim”. Eu também já ouvi, mas?? COMO é, então??? Todos os argumentos dos tecnofóbicos são bizarros. hahaha

      Fico feliz que tu tenhas gostado! Um abração!

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  3. Olha só como a internet é bem louca – achei seu texto no meu feed do Facebook, compartilhado por uma amiga de São Paulo que conheci num fórum lá em meados de 2010, 2011.

    Queria comentar pra te dizer o quanto eu concordo com tudo isso – mas além disso, o quanto a internet me ajudou. Sofri de fobias sociais por muitos anos ao crescer, embora não soubesse o que era isso naquela época. Meus pais não tinham ideia. Eu não falava muito com eles também. Tinha um amigo só, de infância, e só conseguia conversar com aquele amigo. Falar com pessoas que eu não conhecia me causavam um desconforto físico. Sentia a temperatura do corpo subir, começava a tossir, doía a cabeça, ardiam os olhos. A escola era meu constante pesadelo, sendo obrigado a fazer trabalhos em grupo e interagir com gente que eu mal conhecia para além do nome. Sofria em silêncio também – não sentia que era algo que eu pudesse compartilhar com os outros. Fui uma criança solitária, e um adolescente igualmente solitário – exceto por aquele único amigo, que não foi dos melhores. Usava minha dependência dele como arma de manipulação. Não que tenha sido culpa dele, embora tenha me marcado de maneira terrível – éramos crianças, e não sabíamos de nada do mundo.

    Mas a internet? A internet me liberou. Eram interações sociais sobre as quais eu tinha pleno controle: se me fizesse ficar desconfortável, eu simplesmente desconectava. Pela internet, conheci gente que gostava das mesmas coisas que eu, que lia as mesmas coisas que eu, e que se sentia tão deslocada quanto eu. Foi como um mundo novo se abrisse diante de mim e, aos poucos, minhas fobias sociais foram melhorando. Hoje já não passo mal falando com gente que não conheço cara a cara. Foi pela internet também que, pela primeira vez na vida, li sobre transgeneridade e identidade de gênero. Lembro de ter chorado ao me ler descrito naqueles parágrafos da wikipedia. Virei noites lendo pessoas descreverem exatamente como me sentia, e finalmente me senti pertencente a algum lugar; pertencente a mim mesmo.

    Aprendi a falar inglês lendo Fanfics e falando no Skype com meus amigos da gringa, conheci a pessoa mais importante nesse mundo para mim em um fórum de Harry Potter. Hoje moramos na mesma cidade e planejamos nos casar – estamos juntos há seis anos. Conheci amigos incríveis, trocamos presentes e viramos noites falando da vida, do mundo, e do novo episódio de Steven Universe. Aprendi a escrever de verdade na internet, conheci artistas incríveis na internet, e mantenho contato com os poucos amigos que fiz cara a cara pela internet, agora que mudei de cidade. A internet me ajudou a quebrar a relação com aquela pessoa abusiva da qual eu achava que dependia. A internet me ajudou a me descobrir. E se alguém acha, por um segundo, que nossas relações não são reais, então não sabem o que é virar noites abrindo o coração à despeito da distância e dos quilômetros, ou se apaixonar por cada vírgula e cada parágrafo através de uma tela brilhante. Vivemos sem fronteiras, e não há nada mais humano do que isso.

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    1. Respondendo o comentário depois de dois meses… Desculpa! Mas que coisa mais bonita, olha isso, a internet bringing together pessoas que amam a internet :’)

      Sua história é absolutamte linda. Me emocionei lendo!!! Fico super super super feliz que você (e eu) tenha(mos) achado a internet. Essa parte, em especial, “Vivemos sem fronteiras, e não há nada mais humano do que isso.” é absolutamente POWERFUL!!

      Te mandando muito amor por você ser uma pessoa tão iluminada!!

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