eu, ela, e o abismo entre nós

A imagem é essa: um pouco menos de vinte adolescentes, sentados em círculo no chão, a maioria com as pernas cruzadas, um deitado contra as pernas de uma cadeira próxima, lendo em silêncio um texto de duas páginas. Depois de um tempo, eu interrompo a leitura dos que já estão no final mas ainda não terminaram, e pergunto, em inglês: “O que vocês acharam?”. Começa uma discussão que dura cerca de uma hora, toda no chão, sobre práticas para se amar mais. Eu sentada entre eles.

Essa não foi a primeira aula em que abordamos nosso Radical Self-love, mas foi uma das que mais me marcou.

A blogger Gala Darling começou a hashtag #RadicalSelfLove para promover o amor próprio, tópico constante nos textos, vídeos, livros e workshops dela. Eu peguei a ideia, e tentei transformar ela em algo viável para a sala de aula.

A premissa era simples: vínhamos falando de amor desde o começo do ano. Do amor veio um papo de respeito pelo próximo e por si mesmo, um pouco de ativismo misturado com grito pela própria emancipação emocional, justamente em admitir a necessidade da comunidade. Eles já estavam comigo há seis meses, já sabiam como eu funcionava, então não houveram grandes protestos quando eu pedi que, como um tema extra para a próxima aula, eles me escrevessem um texto falando sobre o que gostavam neles mesmos, quais eram as melhores coisas na vida deles. Nesse ponto, eu nem estava tão certa de onde eu estava indo com o projeto ainda; eu sabia que eu queria desenvolver uma consciência maior sobre a importância do amor próprio, tentar equipá-los com maneiras de se ver eles mesmos pelas lentes de amor que os amigos e familiares também vêem.

De lá pra cá nós fizemos muitas atividades voltadas para o projeto. Como eles são uma turma de pós-intermediário, todas as nossas conversas eram em inglês, os textos lidos em inglês, os textos escritos em inglês, os vídeos assistidos em inglês também. Tudo perfeitamente aceitável e previsível dentro de um contexto de sala de aula de ensino de língua adicional, certo? Mas eu precisava que eles fizessem o que não era aceitável. Eu precisava, pra que houvesse uma absorção total da mensagem, que eles fossem absolutamente imprevisíveis. Eles tiveram que sair da zona de conforto. Na última aula, uma menina fez isso na frente da turma inteira, fazendo metade da turma (eu, inclusa) chorar de amor. (Pra ser bem sincera, a gente chora de amor bastante juntos.) A maioria tirou fotos e me mandou por WhatsApp. Quatro meninas tiveram a brilhante iniciativa de começar um projeto delas, o feliz.assim. Eu disponibilizei um milhão de links e um milhão de discussões, e eles todos têm participado de suas maneiras. Mais recentemente, eles tiveram que desenvolver três objetivos, de curto, médio, e longo prazo. Cada um deles têm um padrinho ou madrinha dentro da sala de aula, e é obrigação deles também manter motivados seus afilhados. Têm dado certo. Eles estão participando. Eles estão amando uns aos outros. Eles estão se amando.

E eu?

Quando eu tinha a idade deles, uma professora minha disse que a falta de sonho era como todos os adolescentes acabavam com suas vidas. Com gravidez adolescente (como minha mãe tinha engravidado de mim), com drogas (como muitos amigos meus faziam), com tendência pra relacionamentos abusivos (como quase todo mundo que eu conhecia). Disse que isso tudo era falta de amor próprio. Quem não tinha amor próprio, estava categoricamente condenado à uma vida infeliz, ou curta. Eu tinha treze ou catorze anos, mas não conseguia parar de pensar naquilo. Parte de mim, a adolescente rebelde que queria destruir o sistema, se revoltou que minha professora achava que eu, nascendo, tinha destruído a vida da minha mãe. Que meus amigos estavam destruindo a vida deles. Que quase todo mundo que eu conhecia, que de fato, não sabia se amar, estava condenado. Eu queria gritar com aquela professora, mostrar o dedo do meio, dizer que ela estava errada.

Mas isso era só 50% de mim. Os outros 50% estava em pânico, com medo que ela estivesse certa. Eu não me amava. Eu não conseguia nem me suportar. Mas eu não queria que isso acabasse com a minha vida. 

Joan Didion tem um ensaio, On Keeping A Notebook, onde ela defende que é melhor manter vivos todos os fantasmas do passado, todos os últimos eus, pra que eles não te peguem de surpresa e desestruturem. Eu acho que é isso que eu tento fazer com meu eu adolescente, meu pior eu, o mais descontrolado e perigoso, tão afundado em dúvidas e auto-piedade, raiva infundada e auto-destrução, vivo. Toda vez que eu provo a importância da auto-aceitação pros meus alunos, eu sinto meu eu de catorze, quinze, dezesseis anos, sentada naquela sala de aula também, me olhando com desaprovação, mas também desespero. Medo de que um dia ela seja completamente irrelevante, com quão distante eu quero ser dela.

Toda vez que eu professo o amor, um abismo maior se faz entre eu e ela.

Mas eu não tenho planos de assassinato, tento esconder as mágoas que guardo dela sem deixar de amá-la, só porque eu sei que ela não conseguiria me amar de volta, e esses são os que mais precisam de amor. Eu não quero matá-la. Eu não quero esquecer que ela existe. Eu só quero ser diferente.

Ela precisa viver.

Enquanto ela viver, eu vou lembrar a importância que tudo o que eu não tive tem. Enquanto ela viver, eu vou continuar caçando textos e vídeos e exercícios, que além de serem em inglês, também são mind-blowing. Eu quero que o meu pior eu viva, pra que ninguém mais tenha um eu assim. Eu quero que meus alunos — e todos que eu conseguir atingir — cheguem aos vinte e poucos, pensando que na adolescência eles começaram a vida que eles vão se orgulhar de ter. Eu não quero que eles esperem mais dez anos para que eles olhem no espelho e se orgulhem de cada traço assimétrico, celulite, ditas imperfeições. Eu não quero que eles esperem dez anos pra sentirem todo o amor que eles merecem. Pra que eles acreditem que são merecedores desse amor. Dos outros, claro, mas muito mais importante: deles mesmos.

Pra isso, ela tem de viver. Cada vez mais longe de mim, mas ainda presente, ambulante, respirante, viva.

E aí o projeto continua. Amor-próprio radical. Isso muda tudo.

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2 thoughts on “eu, ela, e o abismo entre nós

  1. Nossa, queria eu ter tido uma professora, alguém assim na minha adolescência. Foram e ainda são anos difíceis no caminho da auto-aceitação. Faço terapia, nem sempre saio convencida do que discutimos nas sessões… mas sempre penso que tudo podia ter sido diferente se eu tivesse tido pessoas assim, como você, nessa época.

    Acho lindo e super válido o que você faz para os seus alunos. Continue assim, crie seres humanos melhores do que os da minha geração, por favor.

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    1. Acho que é um caminho constante pra todos nós, né? Às vezes é mais fácil, às vezes mais difícil, mas o importante é continuar tentando. 🙂

      Muito obrigada pelo apoio! Vou te dizer que eles são todos tão lindos e incríveis. Eles vão salvar o mundo!

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