meu primeiro dia morando sozinha

Mais caixas. O computador. A cadeira da escrivaninha. Mais caixas. Mais roupas. Mais coisas. E ai sim, a última coisa que faltava na casa: eu. 

 

Minha mãe me ajudou na faxina pesada, na organização geral das coisas. A primeira coisa que eu fiz sozinha no (meu!) apartamento foi tomar um banho. 

Depois, as possibilidades eram sufocantes. Abri uma garrafa de licor de chocolate, coloquei no PlayStation que ganhei do meu tio um DVD antigo do Good Charlotte. Fiz uma massa, rebolando na cozinha, cantando My girl’s a hot girl, a riot girl, and she’s angry at the world. Emergency call 911, she’s pissed off at everyone (ou alguma coisa assim: não tenho internet o suficiente agora pra checar letras pra não passar vergonha). Quando chegou em uma música específica, eu já tinha terminado de comer, cansado de dançar, e estava no sofá, enrolada no cobertor, tomando licor e assistindo o show. 

Comecei a chorar.

A música me traz sentimentos meio confusos, mas no geral acho que chorei pelo quão grande tudo é agora. Especialmente ontem à noite, especialmente ouvindo meu DVD preferido da adolescência, especialmente na primeira noite no meu apartamento. Me deu um choque de realidade muito grande: eu estava dizendo adeus pra pessoa que eu era quando eu me emocionei pela primeira vez ouvindo aquela música. Faz sentido? Devia ser 2005 ou 2006, quando eu ouvi a música e o DVD da primeira vez, notei as semelhanças entre o que a música trazia mas sem ainda entender completamente, e a minha vida. Eu não estou dizendo que sou imune à música agora, mas acho que alguma coisa clicou e alguma coisa mudou.

Eles fecham esse show com Lifestyle Of The Rich And The Famous. Eu tinha recém lavado a louça e guardado na geladeira o que sobrou da massa, e já que minha cozinha apresenta a perfeita acústica pra um karaokê que vibre nas paredes, decidi cantar. (Fica aqui meu pedido de desculpas formal aos vizinhos.)

Escrevi um pouco nas minhas histórias. Arrumei tudo, escovei os dentes, fiz uma rotina rápida de yoga ore-sono e, exausta, fui pra cama. Era nove horas.

Acordei umas três vezes durante a noite. Tive um sonho curioso, sobre uma menina que tinha meu rosto mas outra vida, e fingia ter um irmão mais novo pra ter alguém sempre segurando a mão, pra nunca se sentir sozinha. No meu sonho, quando ela percebeu que o irmão não existia, foi um choque. 

Comi cáqui sentada na sacada de café da manhã. Varri a casa de novo. Fiz uma rotina rapidinha de manhã de yoga. Levei o lixo pra baixo, fui almoçar com minha mãe na casa dela. 

“Não se sentiu sozinha?” ela perguntou. 

Eu pensei um pouco. “Não,” respondi, rápido. 

Ai eu lembrei do sonho, mas já tínhamos mudado de assunto, e eu queria ajudá-la com as preparações de almoço. 

Não sei. Dizer que eu me senti sozinha me parece mentiroso e de má fé, como se fosse excluir toda a diversão que eu tive dançando pela casa, ou a alegria desproporcional e descabida de coisas ridículas e pequenas, como escolher o que comer e escolher varrer a casa. Esse pequeno poder de decisão me deixa bêbada de independência, de senso de Gente Grande. Dizer que eu me senti sozinha apaga tudo isso, não parece certo. 

Acho que não é bem que eu me senti sozinha. Acho só que estou aprendendo a viver comigo mesma, pela primeira vez na vida.

Eu gosto de aprender. E se minha escola pra essa jornada de auto-conhecimento for esse lindo apartamento, então está bem. Estou pronta. Que comecem as lições. 

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3 thoughts on “meu primeiro dia morando sozinha

  1. Estou lendo seu blog todo, pq não te conhecia… e acho que estou encantada, nunca conheci alguém que falava assim… parecendo que tem várias pessoinhas de você dentro de uma só. Aliás, acho que nem eu sou assim… me sinto mais como um ser em mutação constante, a mesma adolescente patética, mas que cresceu e aprendeu algumas coisas, apanhou da vida e ganhou alguns louros. Mas nunca pensei em mim mesma como nessa parte, que achei tão poética: “eu estava dizendo adeus pra pessoa que eu era quando eu me emocionei pela primeira vez ouvindo aquela música.” Na verdade, quanto mais leio, mais acho que você é um conjunto de pessoinhas, adoráveis aliás, que faz um pessoão.
    Morar sozinha sempre é um choque, mas acho que é tão positivo, tão benéfico… eu não tenho essa relação bacana que você tem com sua mãe, e na verdade, eu fui morar sozinha e arrastei o namorado (marido hoje) na época, mas passei as mesmas coisas que você descreveu no texto. Aprender a viver consigo mesma faz da gente alguém melhor… pq a gente tenta ser uma pessoa melhor, digo, REALMENTE tenta. É um negócio que não é fácil de explicar e nem verbalizar… mas bom, te desejo toda sorte do mundo (sei que o texto é de Abril/15 mas o primeiro ano de morar sozinha conta como uma coisa só!).

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    1. !!!! Eu fico tão feliz que você esteja gostando do blog! Me deixa super felizona, com o maior sorriso no rosto. E poxa, obrigada pelos elogios, obrigada pela doçura. (Espero que esteja sendo uma semana doce pra você também!)

      Cara, então, e num é? Legal que você foi morar com o namorado/marido, acho que ajuda a desdobrar um pouco daquele individualismo que eu acho que tá mais cimentado que nunca agora que eu já estou há alguns meses morando sozinha. Mas o que você falou sobre REALMENTE tentar… é tão verdade. Nas menores coisas, é um esforço enorme pra realmente ser o melhor que se pode ser. Não deixar louça acumular na pia. Guardar as roupas de volta no armário. Lavar o chão mesmo com preguiça, no único dia livre… haha Pra mim, o maior desafio é justamente a organização. Minha mãe me disse um dia que a nossa casa vira fácil fácil o espelho da nossa mente, e que casa desarrumada é espelho de mente desarrumada. E eu infelizmente vou ter que concordar com ela. Me dá um nervoso quando minha casa tá uma bagunça…

      Eu preciso escrever um outro texto sobre morar sozinha! Tem tanta coisa que eu /preciso/ botar pra fora sobre isso! hehe

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      1. Meu marido é um ser bagunceiro nato, não adianta arrumar as coisas, pq ele desarruma em velocidade 5… kkk E só por isso não concordo com sua mãe, sobre a casa ser o espelho da mente. Penso mais que a casa da gente é como o nosso coração, pode ser desorganizado, mas se vc entrar e ver direitinho as coisas e sentir que tem amor, uma família, se sentir acolhido… mesmo se a casa estiver vazia (e os gatos no petshop, pq né, isso tb conta como família).

        Mas tem coisas que a gente descobre sobre a gente mesma: que vc gosta de lavar louça, ou que odeia, mas faz cantando alto com a música, pq distrai e o tempo passa logo. Que não dá pra passar polidor nos armários, pq os gatos soltam pêlo e fica tudo grudado, mas tudo bem, não ligo. Que a cortina bonitona era fora do orçamento, mas que o pano que eu comprei e fiz a minha cortina mesmo, tá mais linda que a outra e dá um orgulho dizer que fui eu quem fiz. E sabe, até aquele dia que você se pega tão exausta, tão afim de nada, e manda a faxina às favas… e tá tudo bem. Mas que amanhã vai ter que limpar pq não tem jeito.

        Eu aprendi a ser a minha melhor companhia, principalmente no ultimo ano, que saí do emprego ruim e tirei um ano sabático (mentira, só não consegui achar emprego mesmo)… aprendi a gostar da minha casa, das minhas coisas, de sentir que alí era o melhor lugar do mundo pq eu fiz assim. Acho que pode ser a casa mais limpa e organizada, ou mais desarrumada e bagunçada, mas se tiver bastante carinho e amor dentro dela, qq um que entrar vai se sentir extremamente confortável e você também vai se sentir bem. Acho que aí sim é quando cai a ficha e dá pra ver a diferença entre casa e lar.

        Espero que você esteja curtindo sua casa e deixando com sua cara, pra ser seu lar, o melhor lugar do mundo pra vc tb.

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