minha vida dona de um cachorro com edema pulmonar

Há vários meses atrás, tantos que eu nem me lembro quantos, minha cadela de 11 anos, depois de ser diagnosticada com problemas de coração, foi diagnosticada com uma doença mais urgente: edema pulmonar. Ou, em outras palavras, água nos pulmões. Ela já estava tomando medicação para os ossos quando os novos remédios para o coração e dois diuréticos entraram pra dieta. Ela também precisava perder peso, apesar de 4,95KG, para o tamanho dela, não ser tão sobrepeso assim. Mas tudo isso ainda estava muito tranquilo. Até que não estava mais.

Evernote Camera Roll 20150224 014824

Nós não moramos em uma casa pequena. Tem um pátio onde ela pode tomar sol, uma sala onde ela escolhe o sofá que quer sentar. Aqui em casa, nunca ninguém a tratou como menos que gente. Mesmo assim, ela me segue por cada metro da casa, levantando no meio da noite comigo, me seguindo até à cozinha quando eu faço refeições fora de hora, esperando na porta do banheiro mesmo quando eu passo quarenta minutos embaixo do chuveiro. Toda vez que eu viajo, ela fica estressada o suficiente que se coça e se arranha, até que nasçam feridas. Ela não sabe viver sem mim.

E eu nunca tive que pensar se sei viver sem ela antes.

10996172_780613635353179_6039163678000691860_n

Pela primeira semana de fevereiro, a Téia teve uma crise respiratória que começou às quatro da manhã em um domingo. Eu fiz o que fazíamos sempre: peguei ela no colo, tentei acalmá-la. Mas ela não estava nervosa. Ela só não conseguia respirar.

Em pânico, acordei minha mãe. Ela fez a mesma coisa que eu estava fazendo, mas por vinte minutos ela ainda não conseguia respirar normalmente. Minha mãe teve a ideia de dar um calmante que ainda tínhamos na geladeira que ela tinha usado um tempo atrás. Funcionou — ela voltou a respirar normalmente, ou pelo menos parou de tossir. Ficou completamente dopada, devagar, confusa. E foi aí que eu disse que precisávamos levá-la em uma Pet 24 horas. Tentamos uma com um veterinário que disse que não tinha o equipamento cardíaco para dar a assistência necessária, acabamos em uma outra clínica muito mais longe e muito mais cara, onde nos disseram que ela ia ter que ficar internada. Ficou.

Quando chegamos em casa (sem ela), e eu entrei no meu quarto (sem ela), olho pro travesseiro no chão (sem ela), eu tive a vigésima crise de choro do dia. Isso já era pelas nove horas da manhã, eu ainda não tinha dormido, e tinha saído de diversas salas de emergência por não conseguir segurar o choro e não querer chorar na frente de estranhos (e o pior, da minha mãe). Eu tinha a imagem fixa dela na Unidade de Tratamento Intensivo, recebendo oxigênio por uma máquina, e de cachorros em estados muito piores ao redor dela. Eu não sabia se sentia alívio que ela não estava tão mal quanto eles, ou pânico que ainda podia piorar muito mais.

Ela voltou pra casa no mesmo dia, ao anoitecer, com injeções a serem aplicadas em casa, e aval veterinário para usar o remédio calmante (que descobrimos ser um xarope) de doze em doze horas. Ela pareceu melhor. Até que as crises voltaram, doze em doze horas virou oito em oito ou o quanto ela precisasse.

Ela não pode ficar sozinha.

Todas as noites eu acordo com ela tendo crises respiratórias. Eu não posso ignorá-las. Eu levanto da cama, a pego no colo, e tento fazer com que passe (ajuda quando ela fica em posição vertical). Às vezes, quando é muito ruim, colocar ela na frente do ventilador ajuda também. Minha mãe não dorme bem faz semanas, também. Ontem ela me disse, em um tom de resignação: “Já perdi as esperanças de dormir uma noite inteira.”

Evernote Camera Roll 20150224 0148242Às vezes eu acordo no meio da noite com as tosses dela, com ela não conseguindo respirar.

Meu primeiro pensamento é: “merda.”

No meio da noite, eu não penso no quanto é difícil para ela, lentamente perdendo a autonomia, se tornando mais e mais dependente dos donos. No meio da noite, eu penso no quanto eu gostaria de poder dormir por mais horas ininterruptas, o quanto meus músculos parecem nunca curar da tensão de a qualquer momento acordar assustada que a próxima coisa ruim possa estar prestes a acontecer. Durante a primeira crise forte dela, naquelas semanas atrás no começo de fevereiro, eu ignorei pelos primeiros cinco minutos. Achei que ia passar. São esses pensamentos egoístas os piores, porque quando eu coloco o meu bem-estar e conforto na frente da saúde dela, mesmo que por alguns minutos e só na minha cabeça, eu sei que a culpa vai me perseguir quando alguma coisa acontecer. Se eu nunca tivesse pensado assim, nem por um milésimo de segundo, será que eu teria agido mais rápido? Será que naquela primeira noite, antes de eu convencer todo mundo que ela precisava de atenção médica, ela ia ter precisado, caso eu tivesse prestado atenção cinco minutos antes?

Eu olho pra ela, e sei que o amor dela é incontestável e incondicional, e eu começo a me perguntar se meu cansaço muda alguma coisa, me deixa mais preguiçosa com meus próprios sentimentos.

A exaustão não muda o amor. Mas adiciona a culpa do egoísmo que vem de tempos em tempos, o medo de que não seja o bastante. Porque eu sei, conscientemente falando, que mesmo que eu não tivesse esses pensamentos no meio da noite que me assustam, todo o amor do mundo não é o bastante.

Mas talvez, o coquetel amor + remédios + vigilância seja quase o bastante. Não para curar uma cardiopata, mas pra fazer com que ela tenha a melhor vida que ela pode ter.

O conceito de doença é meio chocante. Uma doença que ameaça a vida traz olhares tristes, faz com que as pessoas acreditem que A Morte Está Chegando. E está. Mas pra todo mundo. É claro que eu sei, em um nível mais superficial que não vai diminuir meu choque quando acontecer, que ela vai morrer antes que quase todo mundo que eu conheço. Mas isso não quer dizer que agora, nesse momento, ela não esteja Vivendo.

Ela está. E nós estamos, também.

FullSizeRender

Anúncios

One thought on “minha vida dona de um cachorro com edema pulmonar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s